um, nenhum e cem mil

“Eu devia pouco a pouco mostrar-me o contrário daquilo que era ou supunha ser para esse ou aquele meu conhecido, depois de ter me esforçado para entender a realidade que me havia dado: necessariamente mesquinha, instável, volúvel e quase inconsistente”.

Pouco antes de fechar, a editora Cosac Naify repaginou parte de sua tradicional coleção “Prosa do mundo”, que ganhou o nome “Nova prosa do mundo”. O primoroso Um, nenhum e cem mil, do italiano Luigi Pirandello (1867-1936), é um destes volumes que ganharam reedição – a obra estava esgotada desde 2010, quando havia sido reimpressa pela quarta vez.

Última obra publicada pelo notável dramaturgo, romancista e contista Pirandello, o romance é considerado o mais complexo do autor: uma especulação metafísica que une prosa, poesia e humor.

Um comentário aparentemente banal da esposa faz o protagonista Vitangelo Moscarda questionar sua identidade. A simples observação de que seu nariz pende um pouco mais para a direita – coisa que Moscarda nunca havia se dado conta – faz com que ele comece a refletir de maneira alucinada:

“Vivendo, eu nunca havia pensado na forma do meu nariz… Mas agora pensava: E os outros? Para os outros que me veem de fora, as minhas ideias e os meus sentimentos têm um nariz. O meu nariz. Que relação há entre as minhas ideias e o meu nariz? Para mim, nenhuma. Eu não penso com o nariz – nem me importo com ele ao pensar. Mas… e os outros? Para os outros, as minhas ideias e o meu nariz têm tanta relação que, suponhamos, se elas fossem muito sérias e ele, por sua forma, muito cômico, todos começariam a rir”.

Giorgio de Chirico, Le maschere, 1959, óleo sobre tela, 50,5x40cm

O fato marca o início de sua “loucura”: para além de não ser aquele que acreditava ser, Moscarda percebe que existe uma versão de si completamente diferente para cada um que o vê – e não há nada que ele possa fazer a respeito dessas cem mil versões de si que perambulam pelo mundo, já que nenhuma corresponde de fato à realidade, ou ao que lhe parecia a realidade de sua identidade.

Reconhecendo-se completamente impotente frente à construção que os outros fazem dele, o protagonista percebe que não se conhece direito e nem terá como conhecer-se: ele não existe. Um, nenhum e cem mil: o próprio título do livro antecipa a epifania tragicômica de Moscarda. Ele então mergulha cada vez mais fundo neste insight sobre máscaras e papeis sociais, numa reflexão absolutamente aterrorizante mas simultaneamente libertadora.

“A ideia de que os outros viam em mim alguém que não era eu tal como eu me conhecia, alguém que só eles podiam conhecer olhando-me de fora, com olhos que não eram os meus e que me davam um aspecto fadado a ser sempre estranho a mim, mesmo estando em mim, essa ideia não me deu mais descanso”.

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