toda nudez será CENSURADA!

O 35˚ Panorama da Arte Brasileira teve sua abertura na noite de terça-feira (26/09), no MAM São Paulo e nós, do ATRAVES\\, estivemos lá para registrar o evento.

Hugo Dourado na captação de audio

Para contextualizar o leitor, o Panorama é uma exposição realizada desde 1969 e já chega a sua 35a edição em 2017. Neste ano, o corpo curatorial aproximou dialeticamente dois textos: Brasil por Subtração (1986), de Roberto Schwarz e o Esquema Geral da Nova Objetividade (1967), de Hélio Oiticica. Dessa aproximação, surge o texto-tese Brasil por Multiplicação, de autoria do curador Luiz Camillo Osório, que defende uma arte brasileira de múltiplas influências e representações.

Dentro dessa proposta, a performance La Bête, do artista Wagner Schwartz propõe uma releitura da obra Bicho, de Lygia Clark, substituindo as pequenas estruturas de metais dobráveis pelo corpo nu do próprio artista, pronto para ser modelado à revelia dos espectadores.

A partir desse apanhado de informações, podemos compreender melhor o contexto e as intenções do performer e, assim, partir para diversas discussões sobre a performance enquanto manifestação artística. Infelizmente, não foi por nenhuma dessas questões que a obra tomou repercussão nacional.

As redes sociais, nos dias seguintes, registravam uma enxurrada de retweets e compartilhamentos acusando o museu e a exposição de apologia à pedofilia e pedindo o seu encerramento, além do fechamento do MAM. Isso porque uma criança de quatro anos, acompanhada pela mãe, tocou nos pés e na mão do artista.

Performance La Bête do artista Wagner Schwartz

Para os que estavam lá, compartilhando d’aquele momento in loco, toda essa repercussão causou espanto pela improcedência das acusações. Afinal, será mesmo possível presenciarmos uma possível violência de cunho sexual contra uma criança sem nem ao menos dar-nos conta? Também somos pais e mães que, incomumente, vivemos da produção artística. Reconhecemos o perigo da violência sexual de todos os tipos, mal do qual a arte se empenha ativamente pela erradicação há, pelo menos, alguns pares de décadas.

Julgar a cena que presenciamos como análoga ao crime de pedofilia ou de estupro chega a ser desrespeitoso com as verdadeiras vitimas que crescem exponencialmente pelo Brasil.

Esse desencontro entre a realidade e a sua narrativa, questão central nas discussões da pós-verdade e fake news, deve ser combatida com contextualizações e mais informações, como ensina o manual. Logo – pensamos – devemos tentar explicar o contexto e as intenções do artista ao realizar a performance. Afinal, talvez isso possa aplacar a fúria de seus acusadores e possíveis mal entendidos.

Percebemos, no entanto, que toda a repercussão virtual baseava-se em uma imagem obtusa da qual um discurso ideológico criado por um grupo sedento por poder opera como a única narrativa possível. Percebemos, também, que esse tipo de contextualização é completamente ineficaz, afinal, o que aconteceu em si tem pouca importância, o que importa é o desejo de acreditar naquela narrativa como real.

O diálogo torna-se então apenas violência e acusar o seu inimigo daquilo que é indefensável, uma estratégia.

A verdade é que a discussão, desde o seu nascimento, não operava no campo do artístico, onde a subjetividade aliada ao repertório e ao contexto histórico devem sempre imperar. Ela está calcada em convicções políticas que, mais do que nunca, travestem-se de perversa moralidade. No jogo político vale tudo: Vale acusar uma mãe e vale expor uma criança. Vale cometer um crime para punir um suposto crime.

Permite-se tudo em nome do Bem.

A criminalização da arte é apenas um fragmento da disputa pelo poder político. Inflamar os desejos de subjugar ou eliminar aquele que é divergente, em oposto a valores como empatia e alteridade, parecem estar cada vez mais em alta e as próximas eleições estão logo aí.

Ainda assim, é assustador perceber que vivemos em um país onde as instituições demonstram-se cada vez mais frágeis e incapazes de assegurar a tranquilidade do andamento democrático. Aos seus cidadãos, resta a crença de que a “justiça” só poderá surgir a partir de suas próprias mãos e o julgamento parte da sua limitada percepção do mundo. Estes, sentem-se livres para clamar por censura.

Onde falham as palavras, somente os gestos resistem e, assim resta, frágil, o corpo do artista sobre o tablado, esperando para ser massacrado. Isso também é arte.

Wagner Schwartz - Foto por Atraves\\

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