Menos de uma semana depois de voltar ao Brasil, recém-chegado de uma viagem para a Europa na qual percorreu milhares de quilômetros de bicicleta, Johnny Bolzan foi convidado a decantar esta experiência no ATRAVES.TV, ocupando o espaço como sua morada criativa e compartilhando seu processo criativo de produção musical. Topou o inimaginável: ocupar uma janela através da qual ele não veria, mas seria visto irrestritamente, 24/7. Ou, em outras palavras: após sair para ver o mundo, agora o mundo o veria. Haja coragem.

Sua chegada foi marcada por
um misto de sentimentos:

Curiosidade, antecipação, vontade de fazer acontecer, incerteza…

Era o início da primeira camada da segunda onda, a camada SER: ao adentrar um espaço branco, quase asséptico e ali instalar-se, o produtor musical ressignificou o vazio.

Uma casa.

Foi curioso notar como rapidamente ele parecia à vontade em sua nova morada.

Certamente a presença de seus objetos pessoais conferiu uma identificação quase imediata entre ele e o espaço, mas a tranquilidade estampada no rosto tinha muito a ver com a experiência de dormir em mais de 60 sofás de desconhecidos durante a aventura europeia da qual havia retornado.

Para além de instrumentos musicais e tapetes, a incrível capacidade de adaptação e a rapidez com a qual ela aconteceu foram as primeiras bagagens de verdade que ele trouxe.

Com um set-up de som que lhe permitia possibilidades infinitas de criação musical, Johnny não se acanhou e nos primeiros dias começou a produzir aquela que seria sua primeira faixa:

Go Down South

Camada: COR

A tranquilidade recém-construída de Johnny passou por um chacoalhão com a chegada do SHN. Com muitas ideias, o coletivo de arte chegou até o ATRAVES.TV para adicionar a camada COR.

Com a bênção de Johnny, que tirou todos os pertences da frente, o SHN desenvolveu seu trabalho a partir de sua leitura da camada SER.

Um olho. O olho que tudo vê.
Johnny volta à cena. Johnny no olho do furacão.

Ele não esperava que o SHN fosse tomar o espaço inteiro, e essa dinâmica revelou alguns limites do processo criativo em conjunto. Por mais que o coletivo tenha se inspirado na vivência do produtor musical, não era possível que ele estivesse presente enquanto eles faziam o trabalho.

A experiência de “sair de casa” foi um pouco desconcertante, é fato. Mas o trabalho do coletivo de arte fez mais do que trazer a cor para o espaço: trouxe também um fôlego renovado que inspirou o produtor musical em sua segunda faixa:

Funkeye

Camada: VOLUME

A terceira camada aconteceu através da tape art de PADO, cuja relação com Johnny mostrou um outro processo – o de uma colaboração criativa que permitiu que duas frentes co-existissem. Durante todo o tempo em que esteve no ATRAVES.TV, PADO foi visto trabalhando tranquilamente ao lado de Johnny, dividindo o espaço e multiplicando a energia criativa do produtor musical.

Minimalista, mas igualmente impactante. Além de intervir sobre a arte do SHN, o artista autodidata PADO deu a dimensão volumétrica à onda ao posicionar um vidro frente à câmera e por alguns dias, obstruindo a visão que tinhamos do casulo criativo e de tudo que ali acontecia. Até então super exposto, acessível a um clique, o produtor musical pôde enfim refugiar-se e dedicar-se àquilo que se propôs a fazer no espaço: música.

Os colaboradores e um Happy Hour

Sentindo-se em casa, perfeitamente habituado ao espaço, Johnny produz como nunca. Chama pessoas com quem gosta de trabalhar, que se juntam a ele na criação musical. Toda a energia encapsulada e agora transformada em sons reverbera em um happy hour, porque afinal, uma casa é também dos nossos amigos. There’s no place like home.

Camada: PREENCHIMENTO

A última camada criativa da onda ficou a cargo do Estúdio Laborg, que fez uma projeção mapeando a tape art do PADO e inundando o espaço com cor, luz e movimento, fazendo com que, nas palavras de Johnny, tudo fizesse sentido.

O que ninguém esperava é que fosse rolar uma espécie de jam session colaborativa. Não se sabe se Johnny inspirou os caras ou se eles o inspiraram, mas talvez isso não importe.

O live set feito em parceria, com Johnny tocando sons improvisados enquanto Laborg fritava o espaço numa viagem multicolorida, foi certamente um dos pontos altos da experiência da morada criativa de Johnny.

BUNKER PARTY

Após tamanha efervescência, ainda sobrou energia para compor uma última música. Com o parceiro Rico Manzano no piano, Johnny criou a faixa Bunker Party, inspirada na experiência pouco ortodoxa que viveu em uma festa na Bélgica.

Tudo tem um fim, e essa residência artística não poderia ser diferente. A despedida de Johnny foi selada em um rodízio de comida japonesa com a equipe da plataforma.

Ele, que passou quase um mês diante dos olhos de todos nós e de qualquer um que acessasse o site, topou um desafio para poucos, produziu incansavelmente e permitiu-se lançar numa experiência nova, revelando as múltiplas possibilidades – boas, fluidas, não-tão-fluidas, mas todas riquíssimas – do processo criativo em camadas colaborativas. Sua presença fará falta, assim como sua energia contagiante.

Até logo, Johnny boy!

ONDA

INSPIRAÇÃO

RE-INSPIRAÇÃO

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