.: PASSADO / FUTURO / PRESENTE :.

COLAB#19
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Esta é uma mostra de arte contemporânea feita por artistas brasileiros. Mas, se a internacionalização da arte tem dissolvido as diferenças regionais, como distinguir a produção contemporânea brasileira daquela de outras partes do mundo?

EDITORIAL

Esta é uma mostra de arte contemporânea feita por artistas brasileiros. Mas, se a internacionalização da arte tem dissolvido as diferenças regionais, como distinguir a produção contemporânea brasileira daquela de outras partes do mundo?
Como se sabe, a noção de “brasilidade” não pode ser definida apenas a partir de uma essência homogênea ligada à geografia. O que aproxima certos artistas de uma tradição brasileira, além de um campo simbólico com o qual dialogam, são referências recorrentes a experiências compartilhadas, momentos históricos, normas sociais e transgressões. Ainda assim, os artistas frequentemente se confrontam e se envolvem com histórias da arte de diferentes regiões do globo. O título Passado/Futuro/Presente refere-se a relações entre o passado e o futuro, feitas por trabalhos de arte enraizados num presente caracterizado pela diversidade sem precedentes e pelo constante intercâmbio de ideias em escala internacional.
Incluindo pintura, escultura, instalação, fotografia, vídeo e performance, esta exposição apresenta um olhar sobre a prática de artistas reconhecidos como pioneiros da sua geração. A mostra traz trabalhos de artistas seminais, bem como várias âncoras históricas da década de 1970 que ilustram continuidades e rupturas conceituais entre passado e presente. Cinco núcleos estruturam a exposição com limites porosos, permitindo aos visitantes traçar seus próprios caminhos.
Fruto de uma colaboração entre o Phoenix Art Museum (Arizona, EUA) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma outra versão desta exposição foi exibida em Phoenix, em 2017. Foi a primeira exposição panorâmica de arte contemporânea brasileira no sudoeste americano, assim como a primeira mostra do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo nos Estados Unidos. Por apresentar uma das mais importantes coleções de arte brasileira do mundo, esta exposição pretende contribuir para a continuidade do debate sobre o que é e pode ser a arte brasileira, a partir do acervo do MAM.
Vanessa K. Davidson
Cauê Alves

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EQUIPE, OBJETO E LINGUAGEM

EQUIPE
Na equipe de documentação contamos com Ka (Kaline) Toledo e Thaís Roque na direção e na pesquisa de conteúdo, redação e assistência criativa, Luanna Jimenes.

OBJETO/ LINGUAGEM
Depois de nos apresentarmos, contornamos o tema, a exposição PASSADO/FUTURO/PRESENTE em cartaz no MAM. Vamos produzir uma documentação da exposição segundo duas linguagens audiovisuais: um minidocumentário investigando os propósitos da exposição e um teaser.

A primeira versão da exposição aconteceu em Phoenix nos EUA em 2017, resultado da colaboração entre o Phoenix Art Museum (Arizona, EUA) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Os curadores, a americana Vanessa K. Davidson e o brasileiro Cauê Alves, selecionaram do acervo do Museu de Arte Moderna um apanhado que trouxesse uma dimensão panorâmica da arte brasileira produzida entre 1980 e 2010, seguindo alguns eixos temáticos.

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POÉTICA

O período escolhido pela curadoria e a importância dos artistas, os principais expoentes da arte contemporânea brasileira; não afastou o entendimento que se faz da arte brasileira ligada a arte moderna, e o sentido do movimento marcado pela semana de 1922: a abertura do olhar para o nativo, o autóctone visto pelo viajante, pelo estrangeiro.

O olhar dos modernistas para as culturas tradicionais em expedições para lugares de difícil acesso, atualizava no século XX, na modernidade, a cena do encontro do século XVI, aquele que descreve o mito de origem do Brasil de definitivo impacto para história dessa geografia, entre indígenas e portugueses. Segundo Roberto Gambini, brasileiro psicólogo clínico com especialização em sociologia dedicado a estudar o que ele chama de alma ancestral brasileira; o encontro entre duas parcelas inversas da humanidade, o autóctone ligado por sua ancestralidade à terra e o homem das navegações.

Procuramos a seguir aproveitar a projeção no estúdio, de imagens das obras da exposição, para criar novas aproximações.

A temporalidade sugerida pelo título da exposição, Passado/Futuro/Presente, nos parece invertida quando estamos habituados a uma cronologia de acontecimentos que se sucedem em linha do tempo. O estranhamento sugerido pela não linearidade do título é parecido com o que forçosamente nos aconteceu. Depois de caminharmos pelo passado histórico do Brasil… do mito de origem ao exagero pelas formas da natureza…   Encontramos como num susto o erotismo circular de Tunga, e a seguir, a ironia de Penna Prearo na série de fotografias “São todos filhos de …. Deus”.

O imaginário da natureza em exuberante fertilidade é estilhaçado por múltiplas linguagens, técnicas e escalas. O corpo aparece em situações de abandono, como o encontramos em Os Cem de Marcelo Zocchio.  O corpo social, um dos eixos temáticos da curadoria, está à procura de cercar o corpo que atravessou os séculos para deflagrar seu cotidiano em cidades entulhadas em constante transformação.

Finalmente vemos capturado e catalogado uma mostra do território, uma rocha identificada pelas coordenadas geográficas. O sul global como um mineral, na serigrafia de Marcelo Moscheta intitulada Análogos, 2011.

Fim do primeiro dia de trabalho com a sensação de muitas coisas esparramadas sobre uma mesa.

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PREÂMBULO:
o SKATE, o DIABO e a METÁFORA

O encontro da equipe de criação no estúdio do ATRAVES\\ precedia a ida ao Museu de Arte Moderna de São Paulo no Ibirapuera para conhecer a exposição e entrevistar os curadores.

Ka (Kaline) Toledo compartilhou o argumento para a criação do teaser, uma metáfora a partir da definição de brasilidade que encontramos nas fotografias de Pedro Motta.

Este temperamento, a grande capacidade de adaptação a precariedade e o improviso aparente ao inesperado estaria na pele de um skatista, que desliza pela cidade vulnerável às suas intempéries.

OBJETO SKATE
Endereçado ao corpo urbano retoma o imaginário do street art junto de outras intervenções no cotidiano da cidade.  Deslizar pelo asfalto que cobre o território.

Mesmo que em constante adaptação pelas alterações de suas superfícies, o skatista, assim como no mar pelos surfistas, somos convidados a deslizar… e dessa forma, escorregando, vamos passando um pouco mais apressadamente, mais distraídos, apesar de toda a tensão para controlar o eixo em constante desequilíbrio, está-se numa aventura fluida, que transmite a dimensão do vôo.

O devaneio onírico vem acompanhado de um equivalente aniquilamento, está ali ao lado sua sombra, sua dimensão diabólica.

O DIABO
A História do Diabo contada por Vilém Flusser pode nos acrescentar na reflexão sobre o tempo, assim como no encadeamento sugerido pelo tema da exposição.

“O que admiramos no céu estrelado não é a sua ordem, mas a sua duração gigantesca. Comparadas com a duração da nossa vida, são as esferas celestes efetivamente eternas. Essa relativa eternidade é o que nos parece divino. Sabemos, no entanto, que é um engano nosso, os astros são fenômenos temporais, como tudo nesse nosso mundo dos sentidos.”  

(FLUSSER, 1965, p. 29)

A METÁFORA AO PROPÓSITO
Um teaser que tenha a exposição PASSADO/FUTURO/PRESENTE no MAM Museu de Arte Moderna de São Paulo como OBJETO a ser inspecionado.

Estamos diante de temporalidades. Vemos nas coisas cotidianas, outras escalas e durações. Na escultura de TUNGA, a mecha de cabelos de cobre vermelho em escala agigantada parece ordenada por um pente de cobre de mesma estatura. Somos levados para o mistério de erotismo e silêncio que reside neste lugar do corpo, na base do crânio ao pé das orelhas; e o nosso gesto de ordenar o que nos parece selvagem.

Se o Diabo mora no tempo, e somos seu playground quando nos esquecemos da divina eternidade, do caráter eterno da existência, estamos completamente mergulhados em suas asas. Somos a estriamento no tempo, vivemos de seus detalhes.

O skatista somos nós que encarnamos no mesmo corpo os desníveis do chão e o vôo urbano.

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Os CURADORES e a EXPOSIÇÃO

Tivemos boas condições de trabalho no Museu, fomos recebidos pela equipe de assessoria e comunicação, apresentados aos curadores que já estavam disponíveis para nos encontrar.  Durante a montagem do equipamento e ajustes técnicos para a gravação, fomos nos aproximando dos curadores, a americana Vanessa K. Davidson e o brasileiro Cauê Alves. Depois de contar um pouco da natureza do ATRAVES\\ (que parece querer abrir formas de ouvir o que ali está, portanto não somos exatamente jornalistas)

O Cauê falou da história do projeto, das relações com o Museu em Phoenix e da importância de atualizar o imaginário sobre “essa situação chamada Brasil” (como diria Flusser); que seja diferente do desgastado clichê exagero pela natureza.

Compartilhou a descoberta de novas relações de sentido entre as obras, efeito inevitável da adaptação expográfica. Terminou com uma apresentação do trabalho em frente do qual se posicionava.

A Vanessa nos contou que a exposição em Phoenix foi eleita a melhor do ano, e da surpresa de encontrar um país completamente inserido no chamado mundo global. Finalmente falou da noção de tempo inserido no título da exposição:  No momento PRESENTE estamos de certa forma munidos de PASSADO e de FUTURO.

Aproximando Flusser desse diálogo, poderíamos dizer que:  no instante PRESENTE estamos em devir entre a DIVINA ETERNIDADE e a DIABÓLICA CONTAGEM REGRESSIVA.

Na noite seguinte, 22/01/19 às 19hs, retornamos ao museu para a abertura da exposição.

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A CAPTAÇÃO

Debaixo de um sol de 40℃ os 8 skatistas (Vitória Mendonça, Elizandra Reis, Dandara Novato, Guilherme Okamoto, Diego Wanks, Luiz Calado, Lucas Cicolo e Leo Fagundes) escolhidos pela diretora Kaline Toledo, os câmeras especialistas em captar esportes de ação (Lucas Cicolo e Murilo Romão) e a equipe do ATRAVES\\ passaram o dia por pontos icônicos da cidade terminando em uma sessão na marquise do MAM. As imagens farão parte do teaser que está sendo construído para a exposição PASSADO/FUTURO/PRESENTE em cartaz no MAM-SP.

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INSTALAÇÃO e TRILHA

Alexandre Cruz Sesper é natural de Santos, desde a adolescência esteve ligado a cultura do street art e ao movimento rock alternativo. Sesper chegou de Kombi no ATRAVES\\ com uma mala com equipamentos e caixas com peças de madeira pino.

A presença do artista no estúdio produziu na equipe um efeito inesperado. Estávamos até este momento olhando para a exposição de arte contemporânea brasileira em questão no Museu no Ibirapuera, encontrando nos trabalhos questões relativas ao contemporâneo:

O aniquilamento e abandono nas cidades contemporâneas, flagrado de vermelho pela centena de corpos na via pública (Os Cem de Marcelo Zocchio); ou na fotografia que serve à sua função de origem, porém o registro neste momento refere-se a um incidente de terraplenagem num terreno não identificado (Arquipélago de Pedro Mota,2008).

EPIFANIA
Acompanhamos como uma plateia a montagem da instalação ESCADA ERRADA e a seguir uma improvisação musical; uma base eletrônica servia de primeira camada para se sobrepor a livre improvisação com a guitarra.

No espaço onde seria montada a instalação, a quinta do estúdio à esquerda, conseguimos incluir a projeção de suas fotografias, colagens com durex de slides, com imagens produzidas e apropriações. O ângulo da parede alterava mais uma vez esse material e a resultante era já ali instalado uma sobreposição de arquiteturas descontínuas, histericamente assinaladas, estava ai também nas pequena chapas de slide, SESPER sem o galpão que lhe servira de ateliê lidava com escala diminutas mas não baixava o tom da explosão.

SESPER fez do estúdio do ATRAVES\\ sua garagem de experimentos aproximando os múltiplos materiais. Tudo tinha um lugar e se relacionava com tudo. Montava as escadas em silêncio durante quarenta minutos, era visível não se tratar de uma montagem mecânica e de repetição vazia, especialmente quando estudava como acomodar a escada recém-montada às outras já amontoadas.

A ESCADA e o LABIRINTO
Escada errada, instalação de incontáveis escadas, algumas delas disfuncionais, amontoadas em aparente acaso. Vê-se o caos na tentativa de uma passagem. O conhecido e vulgar elemento arquitetônico que serve para a mudança de pavimento não cumpre sua função e nos deixa confusos.

Estamos perdidos como em um labirinto – a complexa edificação com tantas voltas, ziguezagues, desvios, corredores, atalhos e caminhos retorcidos desviam o caminhante para uma aventura da qual talvez não saia vivo –  é inevitável se perder. Só resta saber se com isso será capaz de encontrar a si mesmo. Na mitologia grega o herói Jasão se salva do Labirinto do Palácio de Creta graças ao fio de Ariadne!

Estávamos entregues aos devaneios sonoros de SESPER, hipnótico, mais melancólico que meditativo, de qualquer forma ensimesmado, estava íntimo de tudo e se bastava.

Não faltou nada encerrou ele dizendo que juntou ali todas as peças.

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CONCLUSÃO e TRANSPIRAÇÃO

Era noite de terça feira chuvosa quando encerramos a produção do teaser passado/ futuro/ presente no estúdio do ATRAVES\\. Tivemos uma conversa final sobre o processo.

Rapidamente chegamos a conclusão de que a criação foi disparada pela dinâmica no primeiro encontro de olharmos os trabalhos dos artistas em exposição para transpirar seu imaginário.

Nesta aproximação estávamos lidando com a projeção de fotografias das obras, o que nos levou a uma leitura mais próxima de sua representação simbólica do que materialidade sensível.

Os Cem de Marcelo Zochio e as colagens da série Um fóssil repleto de anzóis de Odires Mlászho aparecem nomeados, mas curiosamente, um pouco mais que isso, emprestam parte de sua matéria: o destaque em vermelho para o que não se quer olhar e no caso da colagem, o efeito gráfico preto e branco assim como suas camadas temporais.

Estabelecido um vocabulário e um repertório de formas pode-se procurar resvalar na contradição inerente à cidade, a promessa de mobilidade e acesso lado a lado com o abandono, a miséria e a desistência, o fracasso aparente de um projeto tecnológico.  

De lá pra cá ou de cá pra lá, o personagem se divide em alguns corpos, essa é a natureza do bando que descreve uno, o humano sem gênero e sua temporalidade. O olhar humano como protagonista localizado neste tempo e cidade. Outro olhar de um humano que atravessou os séculos para nos encarar. Um terceiro olhar também humano inscrito na arquitetura, as edificações e seu devir outrem contam o que já fomos e o que já foi este lugar, outros tantos olhares aqui e ali em velocidade…  

Pra finalizar um trecho do poema A bruxa do mineiro Carlos Drummond de Andrade, com seu espirito cansado amou a natureza tanto quanto a melancolia:

DORME MEU FILHO.

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VÍDEOS DA COLAB

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CONVIDADOS

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RE-INSPIRAÇÕES

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