o corpo sem órgãos segundo artaud

Aliando uma vontade expressiva a um formalismo cuidadoso, Antonin Artaud consagrou-se como uma das figuras teatrais mais importantes do século XX com seu conceito Corpo sem Órgãos – um grito de liberdade radical contra o niilismo, a misantropia e a automatização do corpo do indivíduo moderno. 

A verdadeira e imortal liberdade foi o grande fio condutor da vida e obra de Antonin Artaud, ator, diretor, poeta e teórico francês nascido na penúltima virada de século. O desengano sofrido durante anos de internações em manicômios franceses; ambientes onde ele se viu primeiramente encorajado a dar vazão àtividade literária só para ver seus poemas sendo usados como atestados de suas supostas patologias mentais e sociais por parte de médicos, que submetiam-no a sessões de eletrochoque e outros procedimentos “corretivos”, são marcos que certamente influenciaram mais do que sua vida, como sua visão e projeto artísticos – e por quê não dizer?!, revolucionários.

Mesmo tido como louco pela sociedade da época, Artaud não se calava:

“Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor. Quero que eles sejam ouvidos.” – Antonin Artaud

Em seu Manifesto do Teatro da Crueldade (1932) – influenciado pelas correntes surrealista e dadaísta -, além de opor-se às características do teatro tradicional, Artaud critica a racionalidade do mundo ocidental. Ele acredita, em primeiro lugar, que a função do teatro é abalar dogmas da sociedade. Mas para isso, em sua visão, seria preciso conceber um novo teatro, fruto necessariamente de uma nova concepção de universo. Daí surge o termo “crueldade”, afinal, ao libertar-se das certezas, só resta a insegurança e o medo. 

Ainda assim, na concepção de Artaud, o teatro ganha um caráter ritualístico, que seria capaz de curar a angústia e reintegrar a totalidade física e espiritual do homem: o autor propunha uma interação entre o palco e o público e entre atores e espectadores. A encenação deveria ocupar todo o espaço. Esta concepção foi amplamente reproduzida por dramaturgos e companhias teatrais influenciadas por suas ideias.

Artaud fugia do juízo como se estivesse atolado em areia movediça. Reconhecendo-se completamente imerso nessa armadilha viscosa, ele elaborou um plano de purificação para gerar um novo corpo que não era nem humano nem metafísico, e ainda, refratário e autônomo, um corpo de resistência e intensidades: o corpo sem órgãos.

Em sua visão, só existe uma verdadeira adequação entre signos e sentidos na natureza: vales, rochedos, precipícios e trevas, tudo é linguagem e tem significado. A intenção de Artaud, nos dois planos, da obra e da vida, era aliar-se a uma vida natural.

“Está na lógica anatômica do homem moderno nunca ter podido viver, nunca ter podido pensar em viver, a não ser como possuído.”

A sua luta contra o niilismo e a misantropia culminou no projeto de Para acabar de vez com o juízo de Deus, peça de rádio que só seria transmitida 30 anos depois, por ter sido censurada à época em foi lançada (1947).

Desde 1967, o Teatro Oficina é herdeiro direto das ideias de Artaud, com produções como O Rei da Vela, Roda Viva e Na Selva das Cidades. Mais recentemente, Zé Celso montou Para dar fim ao juízo de Deus (2016).

“O homem é enfermo porque é mal construído. É preciso desnudá-lo para raspar esse animalúnculo que o corrói
mortalmente,
deus
e juntamente com deus
os seus órgãos
Pois, amarrem-me se quiserem,
mas não existe coisa mais inútil que um órgão.
Quando tiverem
Conseguido fazer um corpo sem órgãos,
então o terão libertado dos seus automatismos
e devolvido sua verdadeira liberdade.
Então o terão ensinado a dançar às avessas
como no delírio dos bailes populares
e esse avesso será
seu verdadeiro lugar.”

Autorretrato de Antonin Artaud, 11 Maio 1946
Autorretrato de Antonin Artaud, 17 Dezembro 1946

CORPO SEM ÓRGÃOS

Uma dilatação ilimitada da existência do ser.

Uma forma de vida infinita num plano sem dentro nem fora.

Um plano de realidade onde qualquer linguagem e todo signo é nu, deve ser vivido, estar presente e correspondente ao mundo como tal.

A dura tarefa deve ser conquistada pelo sacrifício do sentido. Influenciado pelas ideias de Nietzsche, Artaud desconstroi tudo o que é por demais conhecido para construir um novo plano que guarda o poder de desvelar o mundo, mas não de forma metafísica e dialética. Artaud quer descobrir o mundo no próprio mundo, a vida na própria vida. Um ato total.

Mas ele não é ingênuo: não se trata da procura por um modelo de vida a ser copiado. É o reconhecimento de que não existe um modelo e tudo que existe é singular dentro de um vasto infinito de multiplicidade de formas existentes.

Para desorganizar o corpo, é preciso aniquilar o juízo e substituí-lo por um fluxo de consciência. E isso só seria entendido como liberdade para quem a tivesse, pois, para os seguidores de Deus e do homem, é pura loucura. Artaud sabe da tênue linha que separa o terreno da razão e da loucura. Mas ele não quer o órgão da razão, então o desfaz e mergulha na natureza, analisando-se e entregue aos fluxos da vida. A prudência é caminhar no fio da navalha, acabar de vez com o juízo de Deus, acabar com o órgão, mas não com o corpo, este, enquanto parte, deve seguir seu dever cívico e ético.

Na segunda e última parte da série Corpo sem Órgãos do blog, exploraremos como Gilles Deleuze e Félix Guattari desenvolverem o conceito de Artaud para ampliá-lo segundo um entendimento filosófico e psicanalítico. O CsO é uma das referências trazidas por Luanna Gimenes para compor seu trabalho de corpo e performance da ONDA PROX_SERIE.

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