nas águas de tarkovski

O cinema espiritual do russo Andrei Tarkovski foi, durante anos, alvo de profundas investigações.

Essas investigações diversas, de alguma maneira, se empenharam em desvendar a aura misteriosa que perpassa todo o seu cinema, mas principalmente por uma suposta intenção simbólica atribuída à certos elementos recorrentemente utilizados, sendo o principal deles a água.

A água surge, concretamente, durante momentos chaves em rigorosamente todos os sete filmes realizados por Tarkovski em suas diversas manifestações: chuvas, alagamentos, infiltrações, lagos, poças, goteiras e oceanos. Sempre impondo-se ao cenário e aos personagens de forma imperativa. Veja uma compilação desses momentos:

É todo um mundo que transborda sensívelmente.

No entanto, essa tentativa de decodificação desses elementos sempre demonstrou-se frustrante. Uma vez que o cineasta, quando foi questionado a respeito de sua própria obra, sempre negou que houvesse, entre tantos simbolismos imediatamente relacionados a água, algum em particular que buscasse.

Pelo contrário: ele sempre o negou. Negou afirmar qualquer condição simbólica como também que houvesse ali qualquer simbolismo.

O uso de simbolismo tornou-se comum em algumas esferas de uma certa tradição narrativa clássica fundada por relações causais. Tudo que surge, significa algo, encontra uma correspondência que complementa um sentido próprio na compreensão da narrativa.

No entanto, a tradição poética em que Tarkovski opera é sensivelmente diferente. As relações estabelecidas entre os elementos não são obviamente diretas. Muito influenciado pela poesia hai kai e outras filosofias orientais, Tarkovski expressou um profundo interesse pela matéria concreta que constitui a imagem cinematográfica e buscou utilizá-las como uma maneira de provocar a sensibilidade do espectador.

O vislumbre das questões metafísicas através de uma inédita relação entre o humano e o meio em que habita, em sua concretude. A crença na imanência da matéria para encontrar a transcendência, recusando o que permanece para além do que se vê e se sente.

Robert Bresson, cineasta francês publicamente admirado por Tarkovski, traduziu com simplicidade esse ideal em seu livro ‘Notas sobre o Cinematógrafo’:

“Traduzir o vento invisível através das águas que ele esculpe passando.”

É através das águas que podemos vislumbrar o encontro entre diferentes planos e podemos preencher o cinema de sua capacidade poética que ultrapassa o simbolismo e outras concepções fundamentalmente cognitivas, racionais. Um exemplo fulminante dessa beleza do inesperado está em um dos momentos finais de Stalker quando, em um ambiente fechado, a chuva cai:

Onde não há simbolismos, há o milagre.

para saber mais:

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