kintsukuroi: o tempo em marcas de ouro

Queremos esconder as marcas do tempo.

Quem se recusa dizer a data de seu nascimento ou recorre a procedimentos estéticos para esconder as rugas e cabelos brancos quer negar um fato: estamos todos envelhecendo. A rejeição aos idosos no mercado de trabalho e sua consequente desvalorização é outra face de uma cruel, porém comum, realidade.

O que escondemos e o que deixamos de mostrar diz muito sobre quem somos.

Essa mentalidade, predominante na sociedade ocidental, colide frontalmente com a forma com que os orientais lidam com essas mesmas questões.

Em seu livro ‘Esculpir o Tempo’, Andrei Tarkovski expõe o conceito japonês de Sabá:

Em seu relato sobre o Japão, o jornalista soviético Ovchinnikov escreveu: “Considera-se que o tempo, per se, ajuda a tornar conhecida a essência das coisas. Os japoneses, portanto, têm um fascínio especial por todos os sinais de velhice. Sentem-se atraídos pelo tom escurecido de uma velha árvore, pela aspereza de uma rocha ou até mesmo pelo aspecto sujo de uma figura cujas extremidades foram manuseadas por um grande número de pessoas. A todos esses sinais
de uma idade avançada eles dão o nome de Sabá, que significa, literalmente, ‘corrosão’. Sabá, então, é um desgaste natural da matéria, o fascínio da antiguidade, a marca do empo, ou patina. Sabá. como elemento do belo, corporifica a ligação entre arte e natureza.”

Tão belo conceito se traduz concretamente na arte do Kintsukuroi (em português, “reparar com ouro”), a técnica de reparar cerâmicas que quebraram-se, vítimas do inexorável efeito do tempo.

O resultado são peças ainda mais bonitas do que quando ‘jovens’, que assumem suas imperfeições e suas cicatrizes. A opção por assumir sua história, que só pode existir devido ao efeito do tempo, e não por esconder, tornar invisível ou descartar o objeto em questão como descartável, impregna-o com as noções de transitoriedade e da impermanência.

As marcas do que vivemos, nossas cicatrizes e nossas rugas, representam nossa resistência ao tempo, nossa sobrevivência. Tudo o que aprendemos, ao errar e acertar, nos credencia ao que alcançamos no presente.

Temos muito a aprender com a arte, com Tarkovski e os orientais.

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