imagestade, por ricardo melani

Um conto sobre o mundo invadido por imagens, cultura e informação, criada por Ricardo Melani:

Estava lá o ar que se sabia. Vestido com uma lânguida brisa trazia a notícia da mudança. Estava ali, entre as ruas que se cruzavam, naquele destino de esquinas, o algo da presença invisível. Ele patrocinava o cheiro da mudança no tudo sempre igual do dia a dia.
Domingo. A fila do pão seguia como as procissões de fim de semana. Em frente, às mesas do bar, as conversas se debruçavam em assuntos propositalmente requentados. Do jogo à erudição, tudo era prosa para as mais vãs disputas verbais acompanhadas de um desejo de faz-de-conta.
Ao lado da banca de jornal, uma pessoa de meia-idade lia um livro que a lia, numa troca de favores entre sujeito e objeto. A banca já estava fechada. Próximo a ela, o motorista de táxi aguardava uma aventura. Quem sabe a sorte entrava no carro.
Poucos, mas fiéis transeuntes tomados pelo sentimento do que está por vir, progrediam pelas calçadas. Podia-se ouvir uma música que se espalhava levada pelo vento. Ela vinha de uma casa que se antecipando às outras tinha luzes acesas.
Os carros desertavam. Os ônibus descansavam. Ali, praticamente não havia movimento. O cachorro linguiça podia se espreguiçar no quente do asfalto, tranquilo como se a miséria fosse a rainha do mundo.
Se havia um sentimento predominante era o feliz-vazio-esperançoso. Ou certa crença romântica. Uma espécie de tênue aposta no porvir. Uma aposta contra tudo e contra todos. Uma afirmação contra a própria realidade: “Segunda, há de ser diferente!”
Era assim, como o mais banal dos domingos. Mas, quando o dia se preparava para o anoitecer, houve um escurecimento repentino. De certa maneira abrupto. Escurecera sem medidas. De um segundo para outro. Assim, como uma transformação dos diabos, sem explicação. Mas como? Àquela hora? Não haveria de ser… mas foi. Umas nuvens esquisitas tomavam conta do mundo. Era chuva? Será?
O vento aumentava a sua denúncia. As luzes da padaria não resistiam à situação. O escuro desiluminava tudo. Não aos poucos, mas de repente ficou-se no sem-sentido. No bar, as conversas pararam. Na padaria, perdeu-se o cheiro de pão. Os transeuntes não se mexiam. O leitor fechou o livro com o desejo de abri-lo. As notas da música vagabunda esvoaçavam num silêncio de delírio. Linguiça, sem previsão e buscando um abrigo, encostou-se ao meio fio.
A primeira tromba chegou como um susto. Animada por assovios de vento, precipitou-se a massa d’água. Mas não era água. Era um facho que se estilhaçou em fluido quando tocou o solo. O líquido escorrendo pela rua desfigurava uma imagem. Traços de ocre se prolongavam no asfalto. “Pai, um elefante!”, admirou-se um menino postado à porta da padaria. Estupefação. “Estão chovendo imagens!”, gritou um anônimo, desses cuja história só se conhecem as palavras.
Não tardou nem um milionésimo de segundo e caíram as fotos em preto e branco. Em menos tempo ainda, as nuvens grávidas eclodiram as suas paridas. Picasso se desmontava. Figura por figura, ele desertava de sua lírica decompondo-se em gotas. Ao chocarem-se com o solo, respingos do que foi se pronunciavam por toda parte. Já não era possível distinguir nem Newton nem Einstein. A lei da gravidade deslizava por entre as fendas da calçada. E, desaprumado no poste, descia em fios d’água o simulacro platônico.
Depois de controlar o espanto, tocadas pelo acontecimento, as pessoas saíram a ar aberto. Sentiam no rosto e nos braços o frio das imagens. Cheiravam o aroma do inusitado. Ouviam o estalar das figuras na própria cabeça e olhavam atentas ao deslumbramento do que se esvaía. Alguns tentaram beber e sentir o gosto de um elétron.
Os céus continuavam revoltos. Despontavam ícones do cinema emaranhados em luzes e sombras. O primeiro a pular foi Rodolfo Valentino. Ele caiu quase inteiro, numa compacta descida. Marlene Dietrich não teve a mesma sorte. Já em pleno vôo, esfacelou seu olhar, chocando-se com átomos cínicos de Marlon Brando. Bogart, de mãos dadas com Bergman, ajeitou o chapéu e se despediu de Casablanca. Os Setes Samurais, acostumados à chuva, riam das Asas do Desejo, que foram separadas pela interpenetração de uma nuvem do Enigma de Kaspar Hauser. E James Bond, cercado pelos Três Patetas, precipitou-se ao encontro na rua com o monólito de Kubrick.
A rua já era inundação. Em relação ao solo, as imagens subiram dez centímetros e invadiram os estabelecimentos. Podia-se ter entre os dedos dos pés um Joyce, um Pessoa ou um Homero. Um bêbado que se sentia na sala de sua casa conversava com Diadorim e piscava para Capitu, que se afastava seguindo o fluxo do Pinóquio, da Cinderela e dos Três Porquinhos.
A imagestade aumentou. Gota por gota, nota por nota, as melodias da nona sinfonia deram lugar a Joplin, a Dylan e a Hendrix. Enamorados, Ellington e Ella bateram juntos nos fios de alta tensão e se pulverizaram em gotículas de Porter. Uma banda de rock lançou-se com fúria heave metal, seguida por baladas comerciais e jingles natalinos.
Um cartaz que esquadrinhava o Mundo de Malboro veio abaixo por inteiro com seu imponente cavaleiro. As nuvens se sucediam em intensidade progressiva e o descontrole tornou-se maestro. As pessoas começaram a se refugiar. Mas não havia refúgio. Os guarda-chuvas eram penetrados pelas imagens, que agora dominavam os céus e as terras. Na padaria e no bar, flutuavam selos, etiquetas, cartazes, anúncios de promoção e frases de ocasião. Embebedava-se com ou sem vontade.
Linguiça foi pego por uma logo-marca. Encharcado, foi levado como objeto de uma enxurrada e perdeu-se em um bueiro. Nada escapava à tormenta do céu furioso. Nada. Nem mesmo as coloridas graças de um pensamento. Não havia sossego. Não havia contemplação. Só havia espaço para um sem-fim de imagem sobre imagem.
Mais que colagem, mais que pastiche, era o tudo misturado no nada. Redemoinhos pululavam em home pages e raios de informação descarregavam sua impaciência. O tempo era escravo do próprio tempo. O espaço estava ocupado por banners eletrônicos. Entre um trovão e outro, um e-mail buscava uma efêmera sobrevivência de significado. Mas, em vão. A chuva já formara rios. As aguamagens tomavam conta de tudo, transbordando a imaginação.
Pôde-se ouvir no último momento um último suspiro lagrimoso de Linguiça, que, como os demais, não sabia o que estava acontecendo.

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