humano abortado

Poema de Eduardo Gasparian Tkacz, inspirado pela leitura de Minima Moralia, de Theodor W. Adorno.

Engraçado como uma gramática é traiçoeira

Se reuniu em um congresso,

Com uma mercadoria,

Com uma individualidade,

E instaurou um pronome indicativo.

Depois desse fato, deu origem a um humano, ou melhor, o humano.

A mercadoria,

A identidade,

A gramatica.

Surgiu então, o Luís. Gosta dos Beatles, usa calças Levi`s, All Star vermelho e óculos Ray Ban quadrados.

E Ana. Odeia o Palmeiras, veste camiseta básica Hering, shorts Adidas e tênis Nike.

Luís veste aquilo que lhe traz identidade, assim como Ana.

Ana e Luís são diferentes.

São?

Ana e Luís acreditam que suas escolhas são totalmente originais, e que eles tem personalidades opostas.

Ana e Luís mal sabem que são a mesma coisa.

Acham que as vontades que tem são originais, únicas.

Coitados.

Antes, Ana e Luís agora, uma ana e um luís.

Duas mercadorias no canto de uma loja.

Não existe subjetividade.

Não existe identidade.

A mercadoria é a promessa da diferença.

O humano nasce morto, pronto para ser embrulhado e disposto na prateleira.

por Eduardo Gasparian Tkacz

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