hitchcock e a janela indiscreta

L. B. Jefferies, um fotógrafo de guerra, quebra sua perna em uma de suas aventuras ao redor do mundo. Esse acidente o deixa impossibilitado de exercer sua profissão e, mais do que isso, o impede de deixar seu próprio apartamento. Essa é a premissa de Janela Indiscreta (1954), um dos mais fantásticos filmes da história do cinema, feito pelo genial diretor britânico Alfred Hitchcock.

Promotional portrait of British-born American film and television director Alfred Hitchcock (1899 - 1980), dressed in a tuxedo, as he aims a revolver for his anthology program 'The Alfred Hitchcock Hour,' December 12, 1962. (Photo by CBS Photo Archive/Getty Images)

Tal premissa é fundamental para exercer uma das mais poderosas reflexões já feitas sobre a arte cinematográfica: como o ponto de vista inflama o ímpeto do voyeur, essência da sétima arte.

Para superar o tédio em um verão atipicamente quente de Nova York, Jeff passa seus dias espionando os apartamentos vizinhos através de sua câmera com uma lente teleobjetiva (super olhar que permite observar o que está distante). Ele observa os dramas cotidianos da vizinha bailarina, do vizinho músico (e alcoólatra) e do jovem casal que vive entre brigas matrimoniais até começar a suspeitar do comportamento de um homem diante do desaparecimento de sua mulher. Supõe, diante de parcas evidências, que ele a matou e escondeu seu corpo. Sua suspeita é compartilhada com outros, que desacreditam em tal trama.

A mágica de Hitchcock está na relação que se cria entre a limitação do nosso protagonista, preso a cadeira de rodas, com a que existe entre os próprios espectadores, limitados em sua busca da verdade por um olhar sempre distante e incompleto: por entre janelas, a cinematográfica ou a de apartamentos, algo sempre permanece oculto, escondido, pronto para ser preenchido pela nossa imaginação (e de Jeff) em forma de narrativa.

Esse jogo é exposto logo na abertura do filme com clareza, evidenciando a relação entre ambas as janelas:

A janela cinematográfica encontra o encaixe perfeito na janela do apartamento de Jeff, deixando de ser uma superfície opaca (sem profundidade) para se tornar uma abertura para a realidade do mundo. A trama que se desenrola a seguir, vista do ponto de vista do espectador/protagonista, é também inflada pela sua capacidade de atribuir significados e, como um voyeur, observar sem ser percebido.

Essa disposição, no entanto, é rompida no momento de clímax do filme, quando o assassino percebe a presença distante do espectador/protagonista e parte para seu encontro, em uma das sequências mais desesperadoras da história do cinema: Jeff e nós perdemos nossa condição enquanto sujeito secreto, observador passivo que, com nosso olhar sedento e insaciável, nos deleitamos das tramas secretas e sofrimentos alheios.

Não por acaso, o seu clímax reverbera a questão do olhar. A última defesa de Jeff em seu escuro quarto (escuro como uma sala de cinema?) é o brilho do flash que cega (olhar, de novo) Thorwald, o assassino. Quase como uma punição pelo seu olhar obsceno e invasivo, Thorwald tenta matar Jeff arremessando-o pela janela, a mesma que intermediou e possibilitou sua relação com o mundo e assim, pela primeira vez no filme todo, Jeff deixa seu quarto.

Janela Indiscreta representa essa contradição inerente ao espectador do cinema: do escuro confortável da sala de cinema, ele invade as vidas de seus personagens em sua intimidade. Hitchcock, um mestre do controle do olhar, parece advertir contra explicitude do olhar faminto, rejeitando alimentar sua incontrolável fome.

As vezes, é melhor permanecer nas sombras.

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