engane-me se for capaz

O que os experimentos fotográficos que possibilitaram o advento do cinema e o pacto silencioso entre ilusionista e espectador nos números de mágica dizem sobre o apetite humano por uma boa história?!

Ao olhamos para imagens em movimento, raramente pensamos em como elas são construídas. Convidativas e sedutoras, elas parecem nos impelir para uma espécie de absorção total. Transmitem silenciosamente seu papel de “mediadoras do real”, o que quer dizer que a maioria das formas visuais com as quais somos inundados diariamente apresentam-se como “naturais” ou como uma representação da realidade.

Como o inventor criativo e curioso que era, Eadweard Muybridge participou ativamente da formação do meio social que acabaria por possibilitar o advento do cinema – o suporte artístico que talvez mais se valha de certos princípios do ilusionismo. O zoopraxiscópio, dispositivo inventado por Muybridge, coloca fotografias sequenciais (tiradas com pouco tempo de intervalo entre uma e outra) em movimento através da rotação de seus discos, dando uma sensação contínua de movimento.

Apesar de entender que se tratava de uma representação de algo e não a coisa em si, o público da época assimilou o jogo de ilusionismo proposto e pagava ingressos para ver a engenhoca em ação. Eram os primórdios tecnológicos que consolidaram uma linguagem que hoje entendemos como “o cinema”; um invento essencial que possibilitou a existência de animações, jogos de videogame e toda a sorte de gráficos visuais em movimento – como os gifs – atuais e relevantes até hoje, e que nos maravilham com sua capacidade de parecer ser.

“O cinema é a verdade 24 quadros por segundo”

Jean-Luc Godard

Um fenômeno semelhante ocorre quando consumimos atrações performadas por mágicos e ilusionistas. Mesmo sabendo que o truque em questão trata-se, bem… de um truque – ou seja, de uma sequência de ações cuja relação intrínseca de causa e consequência nos escapa, mas que nem por isso deixa de estar presente durante os ágeis movimentos que nos deixam com a sensação de que algo sobrenatural está acontecendo -, somos movidos em direção ao espetáculo que se desenrola diante de nossos olhos como se disséssemos: “sim, eu sei que é mentira, mas ainda assim…”.

E esse ponto diz muito sobre a nossa própria constituição psíquica e pré-determinação em tolerar algo que, mesmo que em um plano inteligível esteja claro que não é verdadeiro, parece extremamente convincente, e de fato o é.

Mentiras sinceras e combinadas não doem tanto, afinal.