DOSSIÊ NOLAN

Christopher Nolan é um dos mais bem sucedidos diretores do cinema americano do século XI. O diretor norte-americano vem, consistentemente, emplacando sucesso atrás de sucesso. Uma das questões particulares de sua autoria é a reformulação das estruturas temporais consolidadas, criando novas perspectivas cronológicas. Selecionamos quatro de seus filmes que alteram nossa percepção do tempo.

Amnésia (Memento, 2000) – tempo e memória

‘Amnésia’ discute essencialmente a confiabilidade de uma pessoa que não tem controle sobre a relação que existe entre a sua memória e o tempo que passa. Isto porque Leonard, o protagonista do filme, bate a cabeça na noite em que sua casa é invadida e acredita que sua mulher foi estuprada e morta. Ele busca vingança pela morte da mulher, mas sua memória do que aconteceu depois do acidente se apaga toda vez que ele dorme. Ao não conseguir criar novas memórias, resta-lhe confiar em polaróides com anotações e tatuagens pelo corpo.

Para desenrolar a narrativa, Nolan se utiliza da constante repetição de ecos internos do personagem principal, criando duas linhas narrativas: uma que segue adiante e outra que retorna. Mais do que isso, elas têm características importantes que as definem e que ajudam na imersão do espectador no filme e torná-lo tão impotente, quanto o protagonista.

A primeira linha narrativa (que segue adiante) se passa em preto e branco e é mais objetiva, embora conforme o filme se desenrole ela se torne cada vez menos objetiva. A segunda (que retorna na linha temporal), é colorida e mais subjetiva, é a voz dentro da cabeça do protagonista, se tornando menos subjetiva conforme o desenrolar do filme também. O filme alterna entre trechos de uma linha e outra e também flashbacks de um tempo passado ainda mais distantes, como o próprio acidente, por exemplo.

Nolan brinca com o tempo no filme de forma a questionar a confiabilidade da memória e da subjetividade de um indivíduo. Quanto as memórias que temos são reais e quanto nós as criamos para servir aos nossos objetivos pessoais? Quão objetiva e próxima da realidade uma memória pode ser? E qual o julgamento que se dá a um homem antes e depois de conhecer seu passado e, mais importante ainda, sua história?

Christopher Nolan explicando as linhas temporais do filme.

A Origem (Inception, 2010) – tempo e espaço

A Origem conta a história de Dom Cobb, um ladrão com a capacidade de invadir o subconsciente e roubar segredos. Refugiado dos Estados Unidos e apartado dos seus filhos pela suspeita de ter assassinado sua esposa, Dom aceita seu trabalho mais difícil: invadir os sonhos do herdeiro de um império financeiro e plantar a ideia da fragmentação de suas empresas. Em troca, receberia a dissolução das queixas criminais e a possibilidade de reencontrar seus filhos.

Para implantar a ideia, no entanto, é preciso invadir três níveis do subconsciente: o sonho, dentro do sonho, dentro do sonho. Uma área inexplorada por Dom e extremamente instável. Em cada nível, um membro fica para trás, mantendo o sonho desperto. O resultado é a construção de três linhas temporais que se estabelecem paralelamente, mas também possuem uma interdependência: o fracasso em uma delas, resulta no fracasso de toda a missão.

Nolan, em A Origem, articula o espaço dentro do espaço e o tempo dentro do tempo, desaguando em um ápice climático que se distende verticalmente. Somente assim podemos alcançar as profundezas do subconsciente.

Interestelar (Interstellar, 2014) – relatividade temporal física

Interestelar se passa num futuro distópico em que a Terra está seca demais para permitir que uma próxima geração sobreviva no planeta. O ex-piloto Cooper deixa seus filho para comandar uma expedição ao espaço com chances quase nulas de retorno em busca de um novo planeta para o qual os habitantes da Terra possam se mudar e, assim, sobreviver. Enquanto isso, sua filha Murph cresce na Terra e dedica seu tempo a descobrir uma forma de tirar o maior número de pessoas possível da Terra para quando esse novo planeta for encontrado.

O filme traz consigo diversas teorias físicas complexas e as explica conforme vão surgindo e a necessidade se apresenta. A maioria delas envolve tempo e gravidade.

Aqui também seguimos duas linhas temporais: a da Terra, seguindo o tempo de envelhecimento ao qual nós estamos acostumados e a do espaço, acompanhando Cooper e que sofre variações no ritmo de passagem de tempo. Ele se utiliza também de diversas elipses temporais de anos.

A teoria física talvez mais explorada no filme, ou que pelo menos a mais marcante para o espectador, é a teoria da Relatividade da passagem do tempo. E aqui não estamos falando de relatividade a partir da percepção de um indivíduo (para uma pessoa entediada 30 minutos passam muito mais lentamente do que para alguém cheio de coisas para resolver), mas da relatividade que envolve a gravidade. O conceito aqui apresentado é o da dilatação do tempo. Sendo assim, em um planeta cuja gravidade seja muito alta o tempo passaria muito mais lentamente do que no espaço. No filme, o planeta oceânico na qual os cientistas pousam é dono de uma dessas gravidades gigantes o que faz com que uma hora lá sejam equivalente a 7 anos na nave na qual o terceiro cientista os aguarda.

Quando as duas linhas temporais se reencontram e filha e pai também, Cooper está poucos anos mais velho do que estava quando deixou a Terra, enquanto Murph tem 80 e poucos anos.

Dunkirk (2016) – subjetividade temporal e linhas temporais entre cruzadas

Nesse filme, três linhas temporais se entrecruzam, embora estejam mais próximas uma da outra do que nos casos anteriores. Elas se entrecruzam até chegarem a um momento final, quando as três se encontram em um ápice climático. Nós acompanhamos então um acontecimento histórico de três pontos de vista diferentes: uma semana de um grupo de jovens soldados que aguardam resgate na praia de Dunkirk, um dia de três civis que tripulam um barco em direção à Dunkirk, com o objetivo de resgatar o soldados que lá estão, e uma hora de três pilotos cujo objetivo é derrubar os aviões inimigos que tornam o retorno à Inglaterra quase impossível.

Aqui, a relatividade temporal retorna, mas dessa vez de acordo com a subjetividade de cada grupo de personagens. Para os soldados na praia, cuja semana se alterna entre picos de adrenalina e tédio, o tempo leva muito mais tempo para passar do que para os pilotos cuja uma hora requer extrema atenção e cujo adrenalina se manteve quase que o tempo inteiro em pico.

Nolan fala sobre as linhas temporais de “Dunkirk”
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