documentaristas em busca da verdade

O filme documental, à rigor, se caracteriza pela pretensão de capturar o real “não-ficcionalizado”. Tal premissa, porém, parece fragilizar-se após mais de um século de cinema de ficção e documentário, chegando ao ponto em que esses dois dispositivos que pareciam ser vias contrárias, passaram a borrar as linhas que os separavam.

Devemos questionar o que, dentro de uma obra audiovisual, define algo como real.

Um ator capaz de declamar seu texto com verdade, torna real sua emoção e palpável a sua interpretação. Quanto da sua própria história de vida se mistura com a do personagem interpretado? Tal questionamento pode ser encontrado exemplificado em “Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho. Nele, um grupo de atrizes e um grupo de pessoas comuns contam e se apropriam de histórias, colocando em cheque um dos pilares da distinção entre ficção e documental: a atuação.

Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho

Outro procedimento padrão do documentário é a entrevista que revela espontaneamente uma realidade, seja ela histórica e social ou do próprio personagem. Tal registro é lido como livre de um olhar enviesado pelo espectador. Porém, esse dispositivo é posto em cheque e revelado no filme “Santiago” (2007), de João Moreira Sales, onde as intenções do cineasta são expostas pelos seus próprios comandos, alterando as intenções do convidado e a disposição do próprio espaço.

 Santiago (2007), de João Moreira Sales

Afinal, onde está o real e quais são os métodos que podem ser aplicados pelos cineastas para encontrá-lo?

O grande documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, aponta para alguns comportamentos que auxiliam nessa busca, mas também atenta para o cuidado que devemos ter com aquilo que esperamos encontrar:

Até que ponto você, como diretor, deve interferir durante uma entrevista?

Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!”. Se ela quiser dar um discurso do porquê ela gostar de ser escrava… eu não estou lá para mudar as pessoas. Eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos …
Eduardo Coutinho
Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.

Outra resposta que ajuda a entender a relação entre o documentarista e o seu entrevistado, é dada pelo documentarista João Moreira Salles:

Quando seguia Lula num carro inferior ao dele, filmando “Entreatos”, sobre a campanha presidencial de 2002, ele o chamou com ironia de “pau-de-arara”? O conflito de classe não está sempre presente?

Eu diria que, num documentário, a questão do poder está sempre presente e talvez transcenda até a questão de classe. Posso filmar alguém mais poderoso do que eu, mas, no momento em que o filme é meu, o poder é meu também. Posso filmar o Bush, a Condoleezza Rice. No momento da filmagem, quem manda sou eu. Que ela ou ele não se enganem. Não há como fugir do fato de que o poder de quem filma é sempre maior do que o poder de quem é filmado, ainda que você esteja filmando alguém que, na escala geral do poder, esteja acima de você. Porque sou eu que enquadro, sou eu que escolho o que perguntar, sou eu que escolho o que editar.
João Moreira Sales

A busca pela verdade exige a reflexão e o questionamento por parte dos cineastas, a fim de compreender os mecanismos que não mais correspondem aos seus anseios na investigação do real. Para além de pertencer ao ambiente que está sendo registrado, ter a consciência da distância entre ele e o seu personagem e da verdade que pode surgir destas diferenças.

Frame do filme Santiago (2007)
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