disciplina e liberdade

Maio de 68 inaugurou um novo capítulo na história: a partir de um passado entendido como repressor e do questionamento do conceito de autoridade, decretamos: “É proibido proibir!”. Durante a movimentação de jovens no mundo todo, inclusive nos Estados Unidos e do lado de lá do Muro de Berlim, só uma coisa importava: liberdade.

Talvez estes jovens não tivessem realmente ideia de que o grito por liberdade que estavam dando era de um tamanho bem maior do que, individualmente, se queria fazer. Ainda assim, a represa de pensamento típico pós Segunda Guerra Mundial estava para ser rompida e, quando uma represa se rompe, o volume de água que aflui não corresponde ao que se espera de ideias de cabeças individuais. Particularidades existiam em cada país e encorpavam revoltas. Mas um ideal unia todos os jovens dos anos 60: nada de censura, nada de proibir, “é proibido proibir”. Das ruas de Paris para o planeta. 

Um dos legados dessa mudança de perspectiva e de alguns outros desdobramentos históricos é que, nos dias de hoje, limites muito claros são artigo raro. Em âmbitos que ultrapassam até mesmo as esferas culturais e políticas: a fluidez imiscuiu-se até mesmo na arte, campo que outrora já foi afetado por ditames e proibições. Pense em Chico Buarque compondo Roda Viva dentro da necessidade de ter sua letra aprovada por um censor da ditadura militar e nos diversos trocadilhos e figuras de linguagem aos quais os compositor recorreu para transmitir sua mensagem dentro de imposições vigentes.

E que maravilhoso é viver em tempos onde não existe pré-aprovação para o que dizemos e como nos expressamos, no qual temos os mais variados suportes para isso, as mais diversas formas de trocar e acessar informação, de nos comunicarmos e mostrarmos ao mundo – ainda que através de nossas telas luminosas – qualquer esforço de realização artística ou de expressão pessoal. Mesmo assim, nunca se discutiu tanto o papel e a relevância da arte. Instalações artísticas e performances ainda suscitam suspeitas e questionamentos sobre sua relevância e capacidade de dialogar com nossa realidade material e espiritual. Alguns, mais saudosistas, falam até da derrocada de preceitos estéticos outrora consagrados.

Dois mil e dezesseis: a ditadura acabou e proibição é coisa démodé.

A verdade é que liberdade pode ser uma prisão para o artista. Em uma situação onde os limites inexistem e qualquer cenário imaginável é permitido (permitido, não possível…), existe um grande risco de perder horizontes e diretrizes de realização. Perder-se em possibilidades. Onde tudo é possível, por onde começar?! A ausência de fatores limitantes pode ser um dos maiores empecilhos para a criação artística. De tal forma que a liberdade, outrora um sonho utópico, pode ter se convertido em fardo para quem aspira expressar-se artisticamente nos tempos atuais.

A primeira onda do ATRAVÉS foi um experimento muito revelador nesse sentido. Convidamos artistas para realizar seus respectivos fazeres artísticos da forma mais livre o possível: a partir de um pedido (“estoure estes balões”, “faça uma obra de arte a partir destes resíduos”, “escreva um poema sobre o que você sentiu aqui”), diga-nos o que você precisa para realizar sua obra (computador? hd externo? tintas acrílico? uma cadeira de barbeiro?) e o espaço é seu. A única imposição: realize a obra aqui dentro. O resto é com você. A forma como cada artista convidado lidou com a inexistência de limites foi variada e muito esclarecedora: alguns sentiram-se desconfortáveis e travaram diante do branco absoluto; outros alçaram o voo no nada. E a partir dele, voaram longe.

Não se trata de pedir a volta de qualquer forma de censura cultural e artística. Mas sim de refletir e fazer algumas perguntas importantes a respeito daquilo que estamos produzindo. Como aspirantes a artistas e realizadores, será que o que estamos fazendo destina-se a derrotar nossa própria morte, perpassar o tempo e dialogar com o futuro (e o passado!), como sonhavam os antigos? Ou é feito para durar o tempo exato de sua realização, como um espetáculo auto contido em si?

Conhecer, afinal, não se trata de ter todas as respostas, mas de desenvolver a capacidade de fazer perguntas cada vez melhores.

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