depois de júlio

“Faça três vezes o sinal da cruz em sua testa e em seu travesseiro antes de dormir. E peça bons sonhos.”

Depois de Júlio, chegou a minha vez.

Passei pelas cortinas de miçangas e sentei.

No primeiro toque, senti um pouco de cócegas.

Depois, avançou…

Amassava e olhava.

Ria e previa.

Seus olhos penetrantes eram tão enigmáticos quanto meu futuro.

Ela falava das linhas. Das grossas. Das finas.

Dizia que eu iria ser rico.

Mas tinha que ter cuidado com meus relacionamentos.

Acertou algumas coisas. Onde eu trabalhava. O nome de minha irmã.

Depois, ficou quieta.

Seus olhos não reagiam.

Pior.

Se preocupavam.

Tratei de perguntar logo.

Não veio resposta.

Só olhos arregalados.

‘Você é perigoso… Vai causar dor em muitos’.

Tirei 25 reais.

Saímos sobrando 10 minutos de almoço.

Peguei o elevador.

Ajeitei a gravata.

Procurei nas entrelinhas da minha palma.

Desliguei o computador.

Exausto, voltei mais cedo.

Paguei o táxi. Era meu rodízio.

Pensava no incidente. Na mulher. No destino.

Destino?

Vesti a flanela.

Esquentei um pedaço de margherita.

Liguei no jornal.

‘Marido mata a esposa e o amante a facadas’

‘Cresce o número de acidentes nas marginais’

‘Vai causar dor em muitos’

Durmo no sofá.

Terceira noite sem sonhar.

Fui à padaria.

Suco. Pão na chapa. Café preto.

Peguei minha comanda. Vou ao caixa.

Uma senhora passa por mim e para.

No começo, não dei atenção.

Sua respiração ficava pesada.

Virou para mim.

Olhos inchados. Lacrimejando.

‘Não faça isso com eles. Eles não merecem.’

Olhavam para mim.

Olhou para eles.

Levantou o indicador.

‘Este homem…’

Paguei.

No farol, entrei em desespero.

Não tinha perguntas, apenas respostas.

Domingo é dia santo.

Acordo com as badaladas.

Pego as chaves do carro.

À maçaneta, ouço alguém bater do outro lado.

Não abro. Colo o ouvido na porta.

‘Sei a sua rotina inteira. Tente qualquer coisa e te mato’

No dia seguinte, não fui trabalhar.

Saí no fim da tarde.

A mercearia é na esquina.

Na lista, somente produtos de limpeza.

Do outro canto da gôndola, um ancião.

Me encara. Catatônico.

Náuseas.

Vômito.

Cumprimentei o porteiro.

Tranquei a porta. Duas vezes.

‘Alô Júlio? Passa o telefone da louca lá…’

Ninguém atende no fim de semana.

95678-4370.

‘Sabia que me ligaria’

‘Tem cura?’

Comprei os dois potes de sal grosso.

Velas pretas.

Banheira cheia.

Afundei a cabeça.

Às claras e às secas, adormeci.

Sem remorso.

Deixei que a da água fizesse o resto.

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