considerações sobre o olhar

Algumas considerações informais do marchand João Correia sobre a questão do olhar no mercado da arte.

♦ Algumas pessoas acham que o olhar é uma capacidade objetiva, e nem sempre é. Varia com o contexto, o tempo, a elaboração e o interlocutor.

♦ Em São Paulo, o pixo de um pixador de Osasco é sinal de decadência, descuido, vandalismo…é um sintoma de um sistema que não funciona.

♦ Em Birmingham, a intervenção artística de um pixador pode ser a cereja do bolo para um colecionador já cheio de Banksy’s maravilhosos.

♦ O olhar muda também em função do interlocutor: enquanto a produção de um pixador ou de uma travesti pode não ser considerado arte, uma vez que a cantora e performer Linn da Quebrada se torna destaque na SP-Arte, ela se torna atraente como descoberta artística.

♦ O olhar também muda através do suporte. Quase que qualquer coisa sobre tela será considerada arte por muita gente, dado o condicionamento histórico que temos para tal. Uma maça da artista Yoko Ono foi comida por não ser considerada uma obra, enquanto que se qualquer um de nós rabiscar uma tela, o resultado será considerado arte por boa parte do público.

♦ Dizem que para fazer algo ser olhado como arte, basta colocar – o que quer que seja – dentro de um ambiente designado para tal – museu ou galeria – ou dizer que foi feito por um artista. Uma estratégia muito comum para mudança de olhar.

♦ Atualmente tento implantar, junto a Estação Hack, uma programação de arte que começará com o Brechó Replay. Considerados fornecedores de roupas, comerciantes ou prestadores de serviço, o projeto promoverá uma ‘mudança de olhar’ que fará com que as suas instalações e performances sejam vistas como arte (já eram, mas faltava a ‘autorização’ ou ‘demonstração’ de como fazê-lo).

♦ O olhar de muita gente para a produção Barroca feita pelo Bernini em Roma é de que não era arte e que não passava de ‘publicidade religiosa’. Os livros de história, no entanto, discordam. Qual a intenção? Não é a mesma de uma campanha publicitária? Porque aquilo é arte? Questão de olhar, que considera a intenção ou não, foca no virtuosismo técnico ou no discurso.

♦ Pode ser dito que a definição de arte é ‘um grito existencial incontrolável carregado em expressão’. Muitas vezes, os mesmos que acreditam nessa afirmação olham para a pixação, que é justamente isso, dizendo que ela não é arte.

♦ A artista Andrea Fraser, quando circula pelo MoMA se referindo aos apoiadores não só pelos nomes mas pelos danos financeiros, ecológicos, ou sociais que as suas empresas causaram para o planeta, muda drasticamente o olhar do visitante do museu que pode ir de apreciador a cúmplice dos causadores das mais comprometedores ações simplesmente por estar lá olhando (ie. conseguimos olhar para uma obra patrocinada por uma petroleira que causou um desastre ambiental e considerar aquilo arte?).

♦ Assim que a Catarina da Russia assumiu o poder, ela espalhou retratos de sí mesma pela Russia como uma estratégia de validação da sua posição, que era questionada. A arte, ela acreditava, mudaria o olhar da população sobre ela, a legitimando no poder. Mais tarde, quando ela começou a comprar arte obsessivamente e formar a coleção que viria a ser base para o Hermitage, a política cultural dela foi apreciada como uma efetiva estratégia de fazer a Russia ser considerada parte da Europa. Essa mudança de olhar tinha grande valor político e militar. Ela se gabava de ter 54 Rembrandts enquanto a França só tinha 8. A aquisição de coleções Francesas e Inglesas quase tão importantes quanto as Reais, fazia com que a França e a Inglaterra se vissem como submetidas ao poder Russo. Isso mudava O OLHAR de como a Russia era vista pelas cortes Européias e levou a Catarina a ser admirada por intelectuais como Voltaire e Diderot, e ser pensada hoje como parte da Europa. A Russia foi de seguidora das tendências lançadas pelos Franceses, no começo do período em que a Caterina estava no poder, a lançadora de tendências. No entanto, na era Bolshevista, e Stalinista, essa mesma coleção de arte, fonte de tanto orgulho no séc XVIII, era vista como memória do sofrimento das classes mais pobres (que eram servos na época da Caterina) e posta a venda. O olhar muda com o contexto histórico e político.

Um ensaio de João Correia

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